Nascimento da Amelie

Por Daniela Milagres | fotos Lela Beltrão
22 de maio de 2017

Fomos todos deitar. Pelo último dia éramos três, mas ainda não sabíamos.

Aos 39 minutos do dia 22 de maio, primeiro dia de sol em Gêmeos, acordei, sem entender o motivo.

Eram 39 semanas e 3 dias de gestação.

No limbo entre o acordar e o sonhar, descobri que havia um líquido quente escorrendo pelas minhas pernas, de forma involuntária e incontrolável.

“A bolsa estourou”, pensei.

Olhei para Sophia que estava dormindo tranquila e esparramada na nossa cama.

Acordei o Vi tentando controlar com a calma, a alegria gritante que morava na garganta:
“Amor”, encostei de leve, “minha bolsa estourou”.

Ele acordou de uma vez. Solavanco.
“E agora?!”
“Agora a gente avisa o pessoal.”

O líquido continuava fugindo em pequenas doses.

Liguei para Janie (doula) e ela perguntou se eu sentia cólicas e se o líquido estava claro.
Eu disse que não sentia nada e o líquido estava transparente.
“Oba. Tenta dormir e descansar. Se algo mudar ou as dores surgirem me liga.”

Janie avisou a equipe: Braulio (GO), Barbara (parteira), Ricardo (pediatra) e Lela (fotógrafa).

Braulio me ligou na sequência (não antes de mandar um emoticon feliz) e me perguntou como estava: disse que bem.
Eu estava muito bem.

É engraçada a consciência de entrada no trabalho de parto: Uma sensação de felicidade e ansiedade que caminham juntas. É como ser adolescente nos minutos que antecedem o primeiro encontro com o enamorado ou como ser criança aguardando os convidados para sua festa de aniversário.

Dormir? Como?!?

Resolvi tomar um demorado banho quente antes de voltar para cama.
No chuveiro Amelie mexia muito.
“Pode vir, filha.”

Deitei e as contrações começaram às 02h00′. Sim, eu queria muito que elas viessem. E elas chegaram firmes e convictas, a cada 12 minutos, mas ainda sem muita intensidade.

Liguei para a Barbara para avisar que as contrações estavam presentes.

Contei para o Vi. E ele, um tanto preocupado (bolsa rota era uma novidade pra gente):
” E aí?!”
” Agora a gente dorme”.

Voltamos a dormir. As contrações me acordavam a cada 12 minutos, fielmente.

Levantamos às 6h30′. Dormir não era mais uma opção. O corpo estava suficientemente descansado. A cabeça bailando. Coração dando piruetas no peito.

Me dei conta que o tampão estava saindo.

Olhava para o Vi e sabia que ele também era aquele garoto na escola e aquela criança aguardando os convidados na festa.

Verbalizar os sentimentos não era necessário. Nós os discerníamos um no outro.

Resolvi mexer no jardim para passar o tempo. Amarrei as orquídeas na árvore. Recolhi as roupas do varal. Mudei as cadeiras de lugar.

As contrações foram ficando mais próximas uma das outras e cada vez mais fortes. Já era preciso mudar de posição quando a dor chegava. Era necessário parar de falar durante as contrações.

” Dan, tá ficando forte, né? Vamos avisar?”

Ligamos para Barbara e Janie, era quase 8h00′.

Elas estavam à caminho.

Barbara chegou perto das 09h00′ e me deu aquele abraço cheio de verdade.
“Posso te examinar?”
“Pode”.

E então era feito o primeiro exame de toque em 9 meses.
” Estou chamando todo mundo” ela disse tranquilamente e com sorriso no rosto.

Estava perto, pensei.
Não quis perguntar quanto estava a dilatação porque imaginava que a Barbara devolveria a pergunta: “Por que você quer saber?”. Eu não teria nenhuma resposta que não levasse ao alimento da minha ansiedade.

Eu não precisava conhecer os números. Essa era a verdade e eu sabia. Buscar medir o tempo ou tentar controlar o trabalho de parto era inútil.

Mas então olhei nos olhos do Vi (que ficou minutos sozinho com ela após o exame) e tive a certeza pelo brilho de lágrimas: “Amelie está perto.”

Sophia acordou.

“Filha, sua irmã vai nascer hoje!” disse o pai.
Ter a Sophia no parto era uma questão importante para nós.

Descemos todos para a sala.

A campainha tocou: Era a árvore da felicidade que compramos dias antes para plantar as placentas das duas, Sophia e Amelie, juntas.

Janie chegou na sequência, com o abraço cheio de calor de mãe.

As dores vinham cada vez mais fortes e mais próximas, quase sem intervalos entre as contrações. Eu me apoiava nos móveis para diminuir o peso do ventre e tentar amenizar a dor.

Então eu senti que mudou.
“a dor virou”, falei.
Sabia o que significava: a fase do expulsivo estava perto. A dilatação estava avançada.
O que antes eram contrações similares a cólicas muito intensas no útero e costas, se transformaram na sensação de abertura dos ossos das costas e bacia para a descida da bebê.

A consciência corporal é incrível, assim como o dor é impetuosa, arrebatadora e…linda.
A ordem dos adjetivos se altera constantemente durante o trabalho de parto.

Braulio chegou na sequência, com o abraço de bruxo sábio. (Eu já disse que tive um dejavu fortíssimo quando o conheci?)

Chegou Lela com o abraço de delicadeza.

Ricardo abriu a porta da sala e trouxe consigo o abraço da serenidade.

Eu já não conseguia conversar. Já não ouvia como todos ouvem. Entendia tudo ao redor, mas as palavras soavam diferentes. Meu corpo pedia para olhar para ele, para dentro, conectar com minha filha. Me entregar.

Ainda assim, sentia claramente a energia que girava na nossa casa naquela segunda-feira: era de uma legítima manhã de domingo na casa da vó.

Todos falavam baixo e com vozes carinhosas.
Todos se conheciam, se afinavam e se somavam.
A sensação era de acolhimento. Família.

Pouco verbalizavam diretamente comigo porque sabiam onde eu estava, já não mais ali. Eu tinha embarcado para a partolândia e só voltaria de lá com a minha filha no colo.

Eles riam entre si, cantavam, brincavam e conversavam com a Sophia. A pequena vinha ouvir o coração da Amelie junto com a Barbara; se aproximava junto com a Janie quando eu vocalizava, perguntando: “o que foi mamãe: “e eu dizia: mamãe só está cantando, filha.”; chamava o “tio Baulio” por todos os cantos da casa.

Era claro que todos os olhos estavam por mim e para mim e, ainda assim, construíram um ambiente de acolhimento para que a Sophia pudesse receber com leveza a irmã.

“Nossa, a gente esquece como dói né?!” Falei para Lela.
Ela me abraçou com o olhar. Você já viu isso? Tem gente com esse dom, aprendi nesse dia.

Braulio perguntou se podia me examinar. Eu concordei. “Você quer saber? 9 cm! Amelie na melhor posição possível.”, falou com sorriso no rosto.

Tentei ficar na banheira. Sophia fazia carinho nos meus cabelos.

Mas aquele lugar não era pra mim. A água já não tinha sido um bom lugar no parto da Sophia. Lá eu não conseguiria toda a potência que precisava.

Era minha cabeça que queria parir na água, mas ela não mandava nada ali. Tchau cortex. Aqui é o corpo quem fala.

Fui para a posição que sabia que conseguiria, que me era familiar: Sim, de cócoras, como no nascimento da Sophia.

Janie fez meu apoio pelas costas e dizia: “Dani, quando vier a contração, enche o peito e segura o ar.”
“Respira junto comigo?” Pedi. “Respiro”, sem hesitar. Fomos juntas.

Depois de um tempo pedi para o Vi trocar de lugar com a Janie.
“Me abraça.” Queria ele perto. Junto. Corpo no corpo. Energia que se comunica.

Ela estava vindo. Eu sentia nitidamente sua descida.

No Spotify, aleatoriamente, começou Anunciação:

“Na bruma leve das paixões
Que vêm de dentro
Tu vens chegando
Pra brincar no meu quintal
No teu cavalo
Peito nu, cabelo ao vento
E o sol quarando
Nossas roupas no varal

Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais

A voz do anjo
Sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido
Já escuto os teus sinais
Que tu virias
Numa manhã de domingo
Eu te anuncio
Nos sinos das catedrais”

Eu acompanhava a letra visceralmente.

Sophia estava no colo do Braulio, que estava sentado no tapete, bem na minha frente.
“Assim dói mais”.
“Doer mais pode ser bom.”

“Coragem”.

Outra contração. Força.

Braulio falou “olha a cabeça da sua irmã. O cabelinho”.

Sophia abaixou a cabeça para ver melhor. Fez conchinhas com as mãos para receber Amelie.

A música mudou: Oração.

“Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois…”

Mais contrações. Respiração. Força.

Fogo que Arde. Queima.

A saída da cabeça do bebê arde como fogo na pele.
Sim! Eu conheço essa sensação: a coroação.
“Olha a Amelie”, Sophia falou.

Duas ou três contrações depois, o corpo escorregou, liso e úmido.

Sophia pulou para o colo da Barbara, a voz embaralhada entre o choro e o riso. Deslumbramento:
“Olha minha irmãzinha, Amelie. Que fofinha que ela é!”

Braulio segurou Amelie apenas para repassar para mim e eu a peguei nos braços e a aninhei.

Nós nos olhamos e nos reconhecemos (é indescritível a atenção que os filhos tem ao nascer, para buscar e encontrar firmemente os olhos de sua mãe).

O pai trouxe o choro da plenitude. Sophia colou juntinho da gente e nossa família cresceu.

Era 12h39 de 22/05/2017.

“Vamos almoçar?”
Pedimos uma parmeggiana.
Enquanto o almoço não chegava, Amelie mamou ainda com o cordão ligado na placenta.
Períneo Íntegro.
E assim adormeci, com Amelie no colo, no sofá de casa. Sophia brincando ao redor.
O almoço chegou e todos nos acomodamos à mesa. Papo bom. Risadas.
Nas taças um vinho que guardávamos há tempos.
Um brinde.

Era uma segunda-feira com cara de domingo na casa da vó.

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