Nascimento do Francisco

Por Luisa Barbosa | fotos Lela Beltrão
Esse relato faz parte do livro “Parto Humanizado, uma visão artística sobre o poder do feminino”

Espera. A palavra que imediatamente me vem a cabeça ao falar do parto do Francisco é espera. Uma espera que começou 1 ano e 9 meses antes da sua chegada quando nasceu o Antônio, meu primeiro filho. Até hoje tento entender, ou aceitar, os motivos que me levaram a uma cesárea agendada no dia 20 de dezembro de 2013. Eu esperava ansiosa, Tom já estava fazia 41 semanas e 3 dias na minha barriga, muitas opiniões, muitos conselhos, muitos achismo, até o momento que sem eu sentir nenhuma contração, sem nenhum sinal de que era hora dele chegar, decidimos que era o tempo do nascimento. A cicatriz que seguiu fazendo parte do corpo não era maior que a do coração. O leite que empedrou o peito nos primeiros dias estava preso como as lágrimas que eu não conseguia soltar. Meu filho chorava meu choro de decepção por não entender porque meu corpo não tinha funcionado. Passou.

Um ano depois eu já era mãe, já tinha consciência que eu não estava mais no controle e por um feliz descuido engravidei do Francisco. O positivo do exame me trazia a certeza do que eu queria: eu ia tentar, eu ia conseguir parir meu menino.

Espera. 40 semanas se passaram. Muito aprendizado e empoderamento, mas nenhum sinal de que um trabalho de parto se aproximava.

Espera. 41 semanas, um descolamento de membrana para ajudar o corpo a agir, acupuntura e um ultrassom que comprovava que eu podia esperar.

Espera. 41 semanas e 4 dias (quase 5). Acordo de madrugada com contrações leves, pouca dor, de 10 em 10 minutos. Um dia inteiro de espera e elas iam e viam, doía mais a cada hora, sumiam por algum tempo, voltavam mais intensas, amamentar o filho mais velho – um bebê-menino de 1 ano e nove meses – fazia as contrações se intensificarem. Chegou a noite e com ela a dor. A dor de não entender o que acontecia, se tinha começado ou não, a dor de ainda ter que esperar.

Espera. 41 semanas e 6 dias. O dia amanheceu com as contrações que não foram embora. Não sei se almocei, se dormi, sei que fui a uma consulta com a obstetra no meio da tarde. 5 centímetros de dilatação. Opa! Acabou a espera! Meu corpo estava funcionando, de forma lenta, mas estava. Da consulta saímos com um indicação de parto hospitalar, por alguns motivos não era mais recomendado que nosso Francisco nascesse em casa. No carro as contrações se intensificaram, estavam de 4 em 4 minutos e eram bem doloridas. Casa, dores, malas, dores, carro, dores, hospital. Na admissão o toque e a notícia: 7 centímetros de dilatação. Opa! Agora entendi o que está acontecendo.

Chegou a doula. Ufa, a Janie está aqui. Chegou a parteira. Agora o bebê pode nascer. Chegou a fotógrafa. Acho que está tudo caminhando bem. Chegou a obstetra. Parece que está próximo. Chegou a pediatra. Pronto, agora ele vai nascer.

Espera. 4 horas entre banheira, chuveiro e massagens. Nada mudou. Contrações que estavam ritmadas perderam o ritmo e a dor aumentava. Primeira sugestão: vamos romper a bolsa. Espera. Dores aumentaram e um toque mostrou que continuávamos com os mesmos 7 centímetros. Espera. Segunda sugestão: anestesia. Para relaxar, para mexerem no colo, para conseguir chegar na dilatação. Daí para frente foi trabalho, ginástica, força. O relógio andava rápido e um cardiotoco dava o prazo para o parto chegar ao fim. A anestesia ia passando e as contrações voltavam já não tão fortes. Eu sentia o bebê descer, finalmente direcionava minha força. Concentração. Senti a cabeça. Estamos perto. Concentração. Vamos deixá-lo chegar pela contração, controla a força e relaxa o períneo.

Espera. Uma contração. Na próxima ele vem. Equipe toda em volta. Gustavo, marido, pai dos meninos, meu suporte, estava atrás me segurando, me incentivando. Mais uma contração e veio o Chico. Das mãos da parteira para meu colo. Molinho, cansado, cheiroso. O cordão pulsava, com a minha respiração eu tentava ensiná-lo a respirar:

– Pode vir, Francisco. Mamãe, Papai e Antônio estão muito felizes com a sua chegada.

Uma tosse. Francisco nasceu. Eu tinha parido. Ela estava no meu colo. A espera tinha chegado ao fim.

 

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