Nascimento do Gael

Por Regiane Barbero | fotos Lela Beltrão
Esse relato faz parte do livro “Parto Humanizado, uma visão artística sobre o poder do feminino”

Como a maioria das mães que buscam um parto humanizado, tive uma primeira experiência de parto bem frustrante, de uma cesariana que, posteriormente, vim a descobrir que foi desnecessária como, infelizmente, a maioria das cesarianas que acontecem no Brasil. Na minha segunda gravidez, agora do Gael, procurei me informar e me munir mais de informações e pesquisa. Tenho uma amiga muito próxima, que também, por conta de uma experiência frustrada, se tornou doula e teve um parto domiciliar humanizado. Ela, com muito cuidado, se ofereceu para me ajudar nessa busca, foi me informando, me contando experiências e eu, fui me encantando por esse mundo. Percebi, que em relação aos médicos que fui visitando no meu plano de saúde, se eu não tivesse uma equipe médica humanizada, dificilmente teria o meu sonho de um parto respeitado.

Meu marido e eu assistimos ao filme o Renascimento do Parto e, quando o filme terminou, estávamos aos prantos. Meu marido me olhou e perguntou: Com base em tudo o que vimos, qual a sua decisão? E eu respondi que a minha decisão estava condicionada ao seu apoio, porque sei que sozinha, eu não conseguiria, até por conta do custo que precisaríamos absorver. E ele me apoiou o tempo todo. Eu queria tentar um parto natural.

Minha amiga se tornou a minha doula. Busquei uma equipe. Não foi fácil, mas consegui encontrar uma equipe bacana, uma ginecologista bacana, uma obstetra fantástica… E tudo foi caminhando para que eu tivesse um parto natural.

Procurei assistir a muitos partos, ler bastante, me preparar da melhor forma. Lidei com muito preconceito, principalmente no trabalho, pois as pessoas achavam minha decisão absurda, negligente… E então, percebi que a questão era mais cultural do que eu imaginava. Mas meu marido sempre me apoiou e nunca tive dúvidas do que eu queria.

Falando do dia D e da experiência em si

Comecei a sentir dores no sábado, dia 14 de novembro de 2015, por volta das 9 da manhã. Procurei ignorar a dor porque sabia que não estava começando o trabalho de parto, era só o início das dores. Fui à minha obstetra, pois tinha uma consulta agendada e a única coisa que ela dizia era que o bebê estava alto, mas que conforme o trabalho de parto iniciasse, essa situação mudaria. Confiei nela e tentei ignorar a dor durante todo o dia. Fui para a casa da doula, que é minha amiga e quase vizinha. Passei o dia na piscina com as crianças, conversava, hora parava para sentir a dor.

Saímos para jantar e, por volta das 23 horas, quando todos estavam na cama, fui tomar banho e comecei a contar o tempo das dores. No começo, eram bem regulares, em torno de 14 a 10 minutos e, assim foi. Fiquei sozinha na banheira, tentando manter a calma, respirando tranquila e comecei a perceber que as dores estavam mais ritmadas, a cada 4 minutos. A doula, já avisada, veio para casa por volta das duas da manhã e, depois, toda a equipe chegou. Fiquei em casa durante toda a madrugada, ouvindo as músicas que eu escolhi, me maquiei… Foi muito engraçado, tentei fazer piada, ser como sou… Ia para a banheira, saía… Minha doula foi fantástica, me fazia muitas massagens, foi super presente.

Minha filhinha estava dormindo no quarto com a minha mãe. Vivi aquilo tudo durante toda a madrugada. Ouvia a obstetriz dizer que o bebê ainda estava alto, que eu tinha boa dilatação, já estava com oito dedos, mas o bebê ainda estava alto. Eu precisava caminhar, precisava fazer alguns exercícios… Fazia o que era possível, controlando a dor, em paz e muito segura daquilo que escolhi. Foi tudo fantástico! As músicas tocando, meu marido comigo, minha amiga ao meu lado, a fotógrafa, que às vezes desaparecia, de tão discreta e cuidadosa. Tirou fotos incríveis, sem que eu mesma percebesse… Neste mundo lindo, esperamos o dia clarear. Naquela atmosfera, esperamos o meu filhinho chegar.

Por volta das 8 da manhã, com nove dedos de dilatação, a obstetriz comunicou que era o momento de ir para o hospital, que minha médica já estava aguardando, pois decidi ter meu filho no hospital. Fui trocar de roupa e a bolsa rompeu. Foi uma sensação estranha e, ao mesmo tempo, muito interessante. A obstetriz ficou contente porque imaginou que naquele momento o bebê desceria e ficaria numa posição mais correta. Um pouquinho antes disso, minha filha acordou e viu aquela movimentação. Minha amiga, sempre muito presente, conversou com ela, e tentou explicar um pouco do que estava acontecendo. Foi quando ela veio, beijou a minha barriga, me deu carinho. Tenho fotos lindas desse momento. Minha mãe me ajudou muito. Ficou com minha filha, cuidou dela…

E nós, fomos para o hospital. Num ambiente mais inóspito, com aqueles protocolos, dos quais não podemos fugir. A equipe estava lá e me acompanhou o tempo todo. Meu marido estava lá. Tudo correu bem. Eu estava muito feliz, esperando aquele momento do Gael chegar. Foram os momentos mais tensos, porque ele estava mesmo alto e o romper da bolsa não mudou essa situação.

Então, eu estava com muita dor, já com a dilatação total. Eram momentos mais preocupantes, mas eu não questionei, não pedi anestesia em momento algum. Cheguei a considerar, mas não pedi. Por fim, a médica disse que toda a equipe estava lá, porque parecia que as coisas estavam caminhando para uma cesariana.

O momento mais fantástico foi quando a minha ginecologista se colocou ao lado da cama, segurou a minha mão e falou: “Regiane, é a última oportunidade que darei para o Gael, pois ele está ficando cansado. As assistentes estavam monitorando, e você também está cansada, então, quando a dor chegar, você fará toda a força que puder, porque se ele não vier, faremos uma cesariana. Não se sinta frustrada, você foi bem até aqui. Todo esse trabalho é importante para o seu bebezinho chegar bem, chegar pronto. Não fique triste, se isso acontecer, tenha a certeza de que estou fazendo o que é correto e adequado”. Então, pensei: Vou fazer toda a força que eu puder agora e, vamos que vamos! Nesse interim, já havia sido colocado o vácuo extrator para colocar na cabeça do bebê e poder puxá-lo com uma cordinha.

Todos estavam ao redor da mesa, gritando: Vem Gael! Vem Gael! Foi uma torcida linda! Esperei a dor chegar e, quando ela chegou, fiz toda a força, torcendo para ele vir, pois eu não queria fazer uma cesariana. Fiz a maior força do mundo e, na última chance que ela me deu, ele nasceu! Foi inscrivel, foi lindo, foi especial! Ele veio para o meu colo, preso pelo cordão umbilical, mamou muito nos dois seios, que estavam cheios de leite e, só depois que estava tranquilo, aquecido, amamentado, foi retirado para ser limpo e realizar todos os procedimentos necessarios. O fato de tê-lo comigo foi o que mais me tocou, porque o que ficou de tristeza em relação ao parto da minha filha, é que ela nasceu às 4h24 da manhã e eu mal senti o cheirinho dela. Encostaram sua carinha no meu rosto, rapidamente, alguns segundos e a tiraram de mim. Eu só fui vê-la às 2h30 da tarde. Essa experiência, para mim, foi a mais dolorosa!

Ter ficado tanto tempo longe da minha filha, sem saber o que estavam fazendo com ela, sem poder sentir o seu cheiro e sem poder acalmá-la. O nascimento do Gael foi mais especial. O fato de poder ficar com ele, cuidar dele, sentir o seu calor, olhar nos seus olhos, pegar na sua mãozinha… Foi tudo muito mágico e ao mesmo tempo real. Espero que este meu relato possa contribuir, em conjunto com os demais, para o benefício do parir e do nascer com respeito.

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