Nascimento do Moreno Mar

Por Pati Passoni | fotos Lela Beltrão
Esse relato faz parte do livro “Parto Humanizado, uma visão artística sobre o poder do feminino”

Para o meu tsunami, Moreno Mar…

Quarenta e uma semanas de gestação e a confiança de que tudo corria bem. No seu tempo você viria como tivesse que ser. Internamente, tudo certo. Coração tranquilo, cabeça serena e foco na nossa conexão. A prática de Iyengar Yoga, sempre orientada pelo seu pai e pelos nossos mestres, antes e durante toda a gravidez nos deixou muito conectados e a consciência corporal estava aguçada nesse momento. Calmaria é a palavra.

Emocionei-me e acho que nesse momento caí na real de que estava ali… prestes a parir. Mulher. Bicho mulher. Eu era protagonista nessa história, junto contigo, filho amado. Saí do chuveiro e, depois de um tempo, com risadas e conversas entre as contrações, chamei o maridão e falei: vamos aninhar no quarto e namorar porque precisamos atiçar esses hormônios. Ficamos juntinhos, carinhos e toques. Dormimos. Acordo, sinto um barulho e levanto. Um líquido escorrendo. Viva! A bolsa estourou! Parecia água pura de tão transparente. Que maravilha! Nada de mecônio. No mesmo momento, Maira veio nos dizer que os exames saíram e não havia sinal de pré-eclâmpsia. Tudo se tranquilizou e os portões para o parto ativo foram abertos. Ai, meu filho, começou a grande brincadeira.

Contrações muito intensas. Lembrei de ter lido que quando ficasse muito difícil de suportar seria porque estava próximo. Pedi para ir para a piscina inflável. Começaram a enchê-la, mas não queriam que eu fosse para não desacelerar o trabalho de parto e o final da dilatação. Pedi algumas vezes. Maira me olhava séria. O clima era outro.

Nossa parteira amada, a Ana Cris, o alicerce de todo o processo, junto com a doula, Maira, já tinha me perguntado se queria fazer o descolamento e eu disse que não. Queria que fosse o mais natural possível.

E vinham contrações bizarras de fortes, ondas gigantes, mares nunca surfados. E entre as ondas, calmaria. Eu falecia entre cada contração. Sentia quando começava, ia aumentando, ficava insuportável e passava. Como no surfe mesmo. Ondas gigantescas… Sentia-me no mar. No meu melhor dia de surfe! E logo apareceu uma vontade de fazer força. Sabia que uma hora apareceria, mas já? (Já é ótimo…) Perguntei: posso fazer força? Elas disseram: opa, claro! Maravilha! Comecei. Com a maior força do mundo você foi descendo. Sentia tudo e pude tocar sua cabeça. Percebia onde estava a cada contração. Elas me pediram para encostar no papai, que estava atrás de mim, pois seria melhor. Eu não queria mudar de posição, mas sabia que era hora de seguir. E foi assim, depois de uma contração e muita força, que saiu sua cabeça, meu amor. E o tempo parou. A dor sumiu e uma alegria intensa tomou conta do meu coração. Era como se soubesse que tinha conseguido. Uma pausa de mil compassos.

Ana Cris disse: na próxima, faz força, que virá todo o corpinho. E quando veio a grande onda, assim o fiz. Ela me ajudou a te receber e desenrolar o cordão, que seu pai gosta de dizer que veio como de um swami. Nasceu na água, nosso Moreno Mar, para transbordar nossos corações de afeto e nossas almas de calor. Peguei você e seus olhos estavam muito abertos, me olhando… e um bocão… chorando! Veio para o meu peito, pegou a mão de seu pai e ficou me olhando. Assim nos conhecemos, com olhos nos olhos e amor no coração. Estávamos juntos, agora, aqui fora. Ainda ligados pelo cordão, mas aqui fora. Todo melecadinho, delícia, quentinho, lindo e com gritos bem altos. Ficou todo o tempo perto do peito e experimentando a primeira pega.

E a vida é toda sua filho. Seguiremos juntos. Sempre. Estaremos contigo. Para sempre. Nossa canção: “Vem menino lindo, vem brincar, vem cantar, ser feliz, amar. Luz, pura magia e cor, dança da vida, entrega pro divino amor. O Sol nasce, o Sol se põe, criando a vida, gerando a linda flor.”

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