Nascimento do João

Por Livia Galdencio | fotos Lela Beltrão

DA CESÁREA AO PARTO DOMICILIAR

Demorei 1 ano para compartilhar meu relato de parto, porque foi uma experiência muito profunda, que reverberou em mim de várias formas e que eu colho frutos até hoje.

A decisão pelo parto domiciliar tem raízes na meu primeiro parto, que foi uma cesárea desnecessária, e não daria pra escrever meu relato sem escrever um textão.
Quero sublinhar que esta se trata da minha experiência apenas, e que pode ser completamente diferente para outras mulheres.
Como o texto ficou grande, eu o dividi em tópicos, pra quem quiser pular uma parte ou outra, mas o propósito principal é registrar minha experiência pra mim mesma e pros meus filhos.

SOBRE A CESÁREA

Não quero julgar quem escolhe a via de parto cirúrgica, mas quero deixar a pergunta: será que as mulheres estão mesmo escolhendo? Estão cientes de todos os prós e contras de cada via de parto, de cada procedimento a que vão ser submetidas e qual a real necessidade e a consequência de cada um deles?
Acho que a falta de informação, a falta de questionamento ou a influência de tantos mitos que amedrontam as mulheres acerca do parto normal fazem com que elas se deixem levar pelo sistema.
Para os médicos, a cirurgia é mais prática, mas rápida e quase sempre sem surpresas. Para os hospitais, é bem mais lucrativo.

[Pra quem tá por fora das estatísticas, o Brasil é o segundo país que realiza mais cesáreas no mundo. A Organização Mundial da Saúde calcula uma taxa entre 10% a 15% de indicações reais de cesárea, mas o que acontece no Brasil são 80% de nascimentos cesáreos particulares e 42% pelo SUS, em 2018.]

Quando engravidei pela primeira vez, eu confiei no meu obstetra e admito que me informei muito pouco.
Como acontece com a grande maioria das mulheres enganadas, a gravidez ia bem até que eu entrei na 38a semana de gravidez e, antes de entrar em trabalho de parto, meu obstetra inventou uma desculpa qualquer para realizar a cesárea. Ele disse que minha placenta estava envelhecida e poderia faltar oxigênio pra bebê na hora do parto.
Nenhuma mulher desinformada ousaria questionar a sugestão médica diante da alegação de risco para o bebê ou para si mesma.
E assim foi o nascimento da minha primeira filha Cecília: eu tremendo de medo, amarrada com os braços em cruz, anestesiada, cortada em 7 camadas de tecido até o útero.
Ela também passou por todos os procedimentos invasivos, como ser aspirada, para só depois de limpa e coberta de tecido voltar a ter contato comigo.
Por sorte, convidei minha amiga pediatra Ana Luiza Diniz para acompanhar o parto e foi ela quem fez o papel de doula segurando minha mão enquanto eu tremia, foi quem colocou Cecília pele a pele comigo durante a recuperação da anestesia e foi também quem autorizou que eu amamentasse depois que me sentisse preparada. Serei eternamente grata!

No pós-parto, ainda no hospital, eu estava completamente aterrorizada com a situação de ter passado por uma cirurgia e ter que cuidar de uma recém-nascida.
Saí da maternidade e falei pro meu obstetra: “Você nunca mais vai me ver aqui!”
(e de fato, nunca mais voltei pra parir com ele numa maternidade! rs)

Em casa eu estava dopada de analgésicos, preocupada com minha filha cheia de demandas, ao mesmo tempo em que tentava me recuperar daquela cirurgia extremamente invasiva. Pra mim, foi uma experiência traumática. Meu corpo não havia entendido a transição. O bebê que estava dentro, de repente, não estava mais. Os hormônios enlouqueceram e me deixaram totalmente desequilibrada. Nada fazia sentido. Acordar era um pesadelo.
Quando eu soube que os motivos que meu obstetra alegou não eram reais indicativos para a cirurgia, eu me senti enganada e impotente.
Olhando esse quadro hoje, eu entendi que tive uma depressão pós-parto e que saí dela sozinha porque ninguém, nem eu mesma, percebemos na época.

A ESCOLHA PELO PARTO HUMANIZADO

E foi todo esse trauma que me impulsionou a fazer tudo diferente na segunda gravidez!
Quando soube que estava grávida novamente eu comecei a busca por uma equipe humanizada em São Paulo.
E assim, comecei a me preparar para ter um parto natural respeitoso, onde eu era a protagonista e eu estaria ciente das minhas escolhas, dos riscos, dos procedimentos, e teria uma equipe para me amparar no que fosse preciso. Eu precisava ter certeza que seriam realizados apenas procedimentos necessários, inclusive outra cesárea, se fosse o caso.
Nesta preparação, eu comecei a reunir afirmações que poderiam me ajudar a vencer os obstáculos emocionais e mentais que pudessem surgir durante o trabalho de parto.
Eu passei a ter cada dia mais confiança na minha capacidade de parir sem qualquer intervenção. Eu passei a entender a importância de me recusar a um sistema hospitalar patriarcal que não respeita a mulher. Eu encarei o parto domiciliar como uma vivência biológica natural, como uma experiência ritualística e também como um ato político. Afinal, se meu corpo foi feito com este potencial, por que eu me recusaria a experimentar?
Muitas pessoas dirão que a tecnologia está aqui para nos poupar da dor. (E, só pra constar, eu senti mais dor e sofrimento na recuperação da cesárea, do que nas horas em que estive em trabalho de parto.) Vivemos em uma cultura que tem tentado diminuir a dor, como se isso nos poupasse de sofrer. Assim como esta mesma cultura tem tentado calar o grito da mulher, evitar o choro do bebê, esconder o sangue e os nossos excrementos naturais ou anestesiar qualquer manifestação selvagem e instintiva que seja vista como um incômodo ou impureza. Por isso, temos tentado padronizar os procedimentos durante o parto como forma de controlar algo que não se tem controle. E, no fundo, esse sistema obstétrico doente é mais uma manifestação do machismo e da violência contra a mulher.
Por isso eu lutei, como tenho visto muitas mulheres lutarem; e eu me recusei a passar por isso novamente.
Tendo tido as duas experiências tão opostas, estou aqui para dizer o quanto o parto natural vale a pena ser vivido. Pode parecer assustador se preparar para viver um mistério – que é diferente para cada mulher, para cada corpo e para cada gestação – mas também pode ser incrivelmente lindo e transformador!

SUPER RESUMO DE COMO NOS PREPARAMOS PARA O PARTO DOMICILIAR

Escolhemos uma equipe de enfermeiras obstetras, ou obstetrizes, ou parteiras, como podem ser chamadas. Geralmente estarão duas. São elas que estarão com você em casa para acompanhar o andamento do trabalho de parto, se vai tudo bem ou se precisa haver uma transferência para o hospital – e isso acontece ao menor sinal de qualquer tipo de intercorrência. Elas tem uma mala enorme de equipamentos para primeiros socorros, inclusive de reanimação do bebê com oxigênio, ocitocina para ajudar na saída da placenta, entre outras coisas.
Entre a 37a semana e a 42a, a equipe fica de prontidão para te atender. É criado um grupo de WhatsApp com todas as pessoas que estarão no dia: pai, acompanhantes, enfermeiras, doula, fotógrafa, e equipe back up de obstetra e pediatra (que iria para o hospital caso fosse necessário). Então a gente providencia vários materiais para preparar a casa, dentre outras particularidades, e esperamos o bebê querer nascer.

RELATO DO MEU PARTO NATURAL
(Escrevi tudo com detalhes, na mesma semana do parto, porque não queria me esquecer de nada. Também porque queria compartilhar com outras gestantes, em forma de retribuição por ter lido tantos relatos detalhados que me ajudaram a me preparar para o meu.)

Dois dias antes do parto, eu comecei a sentir contrações leves. Acordei de madrugada com contrações que vinham exatamente de 10 em 10 minutos. Eu fiquei encantada com a precisão do intervalo, como se meu corpo tivesse mesmo um relógio interno. Porém, ao amanhecer, elas cessaram. E eu entendi que eram apenas os tais pródromos, que podem durar semanas antes do parto. Por isso, eu e Marcelo não contamos para ninguém pra não gerar expectativa.
Durante essas 48hs, as contrações vinham sem ritmo, a cada 1 ou 2 horas. Eram bem leves e possíveis de disfarçar. No primeiro dia chovia muito e eu fui andar pro shopping pra ver se engrenavam. No segundo dia recebi várias visitas em casa.
E foi só no terceiro dia, o dia 9 de janeiro de 2018, o dia do nascimento do João! Tudo começou às 5h da manhã, com uma contração forte seguida de líquido amniótico escorrendo. A bolsa tinha estourado. Acordei o Marcelo e falei: “agora ferrou! Preciso entrar em trabalho de parto antes que seja preciso induzir o parto no hospital”. (risos) E na minha cabeça traumatizada, qualquer coisa que desse errado iria me levar novamente a uma cesárea. E esse fantasma me acompanhou durante todo o trabalho de parto.
As contrações seguiram espaçadas e sem ritmo até as 9h da manhã, quando saiu o tampão. Então, uma das enfermeiras mandou no grupo do whatsapp: “Fala pra Lívia comer e descansar ao máximo, pois ela vai precisar de energia mais tarde.” Quando Marcelo me transmitiu o recado, eu pensei: “Mais tarde? Eu não quero que chegue até mais tarde, eu quero ter um trabalho de parto rápido!”
9:30h eu me levantei da cama e peguei todos os amuletos que recebi no chá de bençãos. Coloquei o colar com os pingentes e as pedras no pescoço, li todas as mensagens que foram escritas pelas minhas amigas para eu ler durante o trabalho de parto, coloquei a playlist com as músicas que me conectariam com esse momento e comecei a dançar!
A cada contração eu mentalizava a beleza que eu estava começando a viver, eu me tornava introspectiva e ao mesmo tempo totalmente atenta ao meu entorno. Senti o cheiro do café e percebi cada movimento da casa como uma loba cuidando do seu espaço.
Foi então que as contrações, mesmo que sem ritmo, começaram a vir curtas e em espaços de até 2 minutos. Às 10:30h da manhã eu pedi a Aline Flores, minha doula pra ir pra minha casa. Enquanto isso, eu dancei “De janeiro a janeiro” com o Marcelo e depois que Cecília acordou também veio dançar comigo. E eu ia tomando água de côco sem parar, pra tentar repor o líquido amniótico e me hidratar. Fui comendo tâmaras porque disseram que encurta o trabalho de parto. Tudo isso dentro do meu quarto, onde eu me sentia em minha festa particular.
Não sei que horas a Lela Beltrão, fotógrafa, e a Kátia Ribeiro, cinegrafista, chegaram, porque elas prometeram ficar invisíveis e ficaram mesmo!
11:30h a doula chegou. Fiquei desanimada porque ela falou que ainda era trabalho de parto latente, que as contrações precisavam ritmar.
Depois disso eu perdi a noção da hora. As contrações começaram a ficar fortes e mexer o quadril não ajudava mais a aliviar a dor.
Então, veio uma contração MUITO forte, onde eu senti meu corpo todo suar frio, fiquei tonta e fraca em questão de segundos. Fiquei assustada e falei: “Alguma coisa mudou agora.”
(Não sou profissional, mas sinto que meu trabalho de parto ativo começou neste momento.)
A doula sugeriu uma compressa quente e me lembrou da minha playlist de mantras. Fomos pra sala ouvir.
No sofá o bicho começou a pegar. Não lembro mais de sorrir, ser otimista ou focar em qualquer coisa que não fosse a contração. Quando ela vinha, eu não conseguia explicar ao Marcelo ou à doula, como eles poderiam me massagear. Então eu mesma me massageava na lombar. (rs) Lembro do Marcelo apertar minha mão quando eu apertava a dele e eu xingar: “Não me aperta, deixa eu te apertar!”. E teve um momento em que eu estava sozinha no sofá e não tinha ninguém comigo. Pensei: “Porra! Me deixaram sozinha pra fazer o que?” Não sei se falei palavrões, mas pensei muitos! (hahaha) Quando me vi sozinha, pensei: “Foda-se! Não preciso de ninguém! O parto é meu e eu posso me massagear sozinha mesmo!” A doula trouxe açaí pra me dar energia. A essa altura, eu não achava mais posição confortável! Durante a contração, eu ia de sentada à ajoelhada, às posturas da yoga, mas nada aliviava.
Só lembro de ver a Cecília nessa hora me pedindo pra deixar eles encherem de água a piscina inflável pra ela nadar comigo, mas eu nem tinha percebido que a piscina já estava inflada no meio da sala.
A doula já tinha usado óleos aromáticos em mim, para ajudar a engrenar o trabalho de parto, e depois ofereceu pra fazer acupuntura para acelerar. Eu não queria nenhuma intervenção, por mais sutil que fosse, pois eu queria entender qual seria o meu processo natural, o tempo do meu corpo. Foi quando a fotógrafa pediu permissão para dar um palpite e me disse: “Você está indo muito bem! Se você se sentir leve ao cogitar a acupuntura, faça. Se não, espere um momento mais crítico.” Foi maravilhoso alguém me apoiar nesse momento e traduzir o que eu queria, mas não conseguia raciocinar pra verbalizar. Obrigada outra vez, Lela Beltrao!
Depois veio outra daquela contração alucinante, MUITO forte. Lembro de jogar a almofada no chão pra me ajoelhar (e mesmo assim fiquei com os joelhos roxos e ralados) e tirar todos os objetos da minha frente pra apertar o móvel de madeira que estava na minha frente.
Pedi pra ir pro chuveiro (ou alguém me sugeriu?). Só sei que o caminho da sala ao banheiro, que é curto, se tornou infinito pela dificuldade de caminhar e com as paradas a cada contração.
Mas tive ainda tempo e pensamento racional para retirar meus amuletos do pescoço, e trocar o sutiã por um top de biquini. (cada uma com uma prioridade mais maluca)
A doula jogou essência de cravo no box pra ajudar. Gostei daquele cheiro bom.
Todo mundo saiu do banheiro e fiquei lá sozinha com Marcelo. Eu estava sentindo muita dor, mas me lembro com carinho desse momento íntimo nosso, do abraço que ele me deu antes de entrarmos no chuveiro. Me sentei sobre a bola de pilates embaixo da água quente e tava tão dolorido, que até a água caindo me incomodava mais do que aliviava. Não faço idéia de quanto tempo fiquei lá, mas eu só pensava: “Puta que pariu, se nenhuma enfermeira chegou ainda é porque essa dor tá longe de estar no final.”
Pouco depois chegou uma enfermeira que eu não conhecia. A princípio eu não gostei de ter alguém ali que eu nunca tinha visto, pois eu fiz questão de conhecer com antecedência todas as pessoas que poderiam estar no dia. Mas segundos depois eu já não tava me preocupando se a conhecia ou não, eu só queria que ela me avaliasse e me dissesse como estava indo tudo.
Saí do chuveiro e ela me pediu pra deitar na cama pra avaliar a duração da contração. Porém, eu não conseguia me deitar, eu não conseguia me levantar, eu não conseguia me sentar, muito menos ficar de pé. Isso devia ser umas 14hs. Eu precisei ser levantada pelas pessoas. E eu falei: “A dor está insuportável!” e depois da avaliação, fui informada de que a contração que estava durando em média 45 segundos, tinha que durar 1 minuto e meio pra ser efetiva na dilatação do colo do útero.
Nessa hora eu DESESPEREI. Falei: “Se essa dor durar mais do que está durando, eu vou desmaiar, não vou aguentar!”. A doula então me deu uma mini bronca, como ela mesma disse, e falou que eu deveria passar por isso. E elas me ofereceram homeopatia e/ou acupuntura pra ajudar a entrar na fase ativa do parto. Pensei: “Oi? Não tô na fase ativa?” E voltaram todos os fantasmas de não aguentar a dor, de pedir anestesia, e ter que ir pro hospital e entrar no efeito cascata dos procedimentos e acabar numa cesárea.
Novamente eu não queria passar por nenhum procedimento, mesmo sendo homeopatia ou acupuntura. Queria viver o processo natural do meu corpo apenas.
Então eu me sentei na cama e falei: “Então vou só comer pra me preparar pra isso!”. Mas antes da enfermeira me fazer o primeiro toque pra analisar o colo do útero, eu senti meu corpo fazer força sozinho. Falei: “Acho que eu quero fazer cocô!” A doula falou que eu podia fazer no chão, que ela limpava. Eu, que já estava indo no banheiro toda hora fazer xixi, falei que não queria fazer nada no chão, que eu preferia ir até lá. Marcelo foi comigo e eu senti outro puxo bem forte e gritei espontaneamente. Tive certeza que era um puxo e não vontade de fazer cocô. Mas entrei em conflito com a informação que havia recebido da enfermeira. Se eu nem estava em trabalho de parto ativo, como seria possível estar no expulsivo? Perguntei: “Pode ser o expulsivo já?”. Quando a doula não viu nada no vaso, já me puxou em direção ao quarto. Senti outro puxo na porta do banheiro e falei: “Vai nascer! Forra o chão!” A enfermeira fez o toque e falou: “A cabecinha dele ta aqui!” Colocaram um lençol descartável no chão. Foi tudo muito rápido e os puxos tinham intervalo muito curto. Perguntei: “O que eu faço?” Ouvi alguém: “Fica de cócoras!” Não consegui me equilibrar de cócoras e me ajoelhei. Marcelo estava me amparando e eu pedi pra ele ir encher a piscina, porque eu queria um parto na água. Ele foi e a doula ficou me amparando no lugar dele. Obrigada Aline Flores, por estar lá rezando por mim! Os puxos deram um intervalo curtinho e eu falei: “Parou? É normal? Posso sentar?” Eu estava muito ansiosa. Aquela sensação do meu corpo agir sozinho, de perder o controle, me encheu de adrenalina. Ouvi da doula: “Sim! Aproveita pra descansar.” Mas não deu tempo e veio outro puxo, e outro… e eu fiquei tonta, sem ar. Ouvi: “Li! Respira!”. Respirei, ou pelo menos tentei. Senti um puxo muito forte e vi o Marcelo na sala com a piscina. Gritei: “Marceeeeeelooooo! Vem aqui que vai nascer!” Eu cheguei a pensar que ele não chegaria a tempo de pegar o João, mas foi o tempo dele se posicionar atrás de mim, veio outro puxo, eu urrei (a palavra é mesmo essa pro som que eu emiti) e a cabeça do João saiu. Ouvi: “Tá tudo bem! Ele tá aqui!” Perguntei: “A cabeça saiu?” Ouvi: “Tá!”. Nessa hora pensei: “Ufa! Já deu certo! Eu já consegui! Vai acabar agora!” Do primeiro ao último”puxo”, foram 6 minutos apenas de expulsivo. Na última força que eu fiz, junto com a força que meu corpo fazia sozinho, soltei um urro ainda mais longo e o João saiu. Foi maravilhoso! Forte e lindo! Eu senti mais do que a força da natureza agindo em mim, eu senti que eu era a força da natureza!
João nasceu dia 9 de janeiro de 2018, às 14:39h, e eu eu fui a prova de que a frase “uma vez cesárea, sempre cesárea” é um mito.
Marcelo amparou João, com a ajuda da enfermeira Camila (obrigada Camila Borges por nos ajudar, mesmo com a mãos tremendo), pois ele tinha duas circulares de cordão no pescoço e uma em cada braço. (Vencido o mito 2, de que circular de cordão no pescoço é indicação de cesárea) Eles retiraram de um braço e passaram por debaixo da minha perna para eu pegá-lo. Eu terminei de desenrolar o cordão e o abracei. Pensei: “Eu consegui! Nós conseguimos, João!”
Me ajudaram a me levantar e a deitar na cama. Pedi para me cobrirem e limpar um pouco o sangue pra Cecília poder nos ver. Ela estava no parquinho com a Ceiça Pereira, presença essencial que cuidou da Cecília, da casa e da alimentação de todas nós com muito carinho. e elas descobriram que João já tinha nascido quando a Karina Fernandes, a outra enfermeira chegou e deu a notícia. (Obrigada Karina Fernandes Trevisan pelos cuidados no pós-parto.)
Lembro da sensação de vitória e gratidão, deitada na minha cama, com tantas pessoas maravilhosas em minha volta. Tinha medo da placenta ficar retida, mas ela saiu facilmente pelas mãos da enfermeira Gabriele Miranda. João mamou logo em seguida, durante um longo tempo. Tomei banho no meu banheiro e voltei pra minha cama, com meus lençóis e o meu aconchego. Tive fome e pedi a Cecília pra buscar uma banana. Ela também trouxe nozes pra mim, a pedido de alguém. O cordão foi cortado pelo Marcelo, depois de duas horas de nascido. João tomou banho 1 semana depois que nasceu, porque eu e Marcelo ficamos viciados naquele cheirinho maravilhoso de recém nascido! (Se você acha que isso é falta de higiene, dá um google aí primeiro.)
Nem sei até que horas a equipe ficou para se certificar que estava tudo bem, talvez umas 4 horas depois.
João dormiu assim que todos saíram. Liguei pra minha mãe enquanto Marcelo ligou pra minha sogra. Demos a notícia nos grupos de WhatsApp da família.
Me lembro de estarmos eu, Marcelo, Cecília e João na minha cama, tomando sorvete antes de dormir. Eu comprei pra tomar durante o trabalho de parto um Häagen Dazs de baunilha porque tava com desejo, mas nem me lembrei disso na hora. O sorvete gelado naquela noite quente foi como o brinde que coroou essa experiência divina que vivemos em família!

Ao contrário da experiência anterior que havia feito eu me sentir incapaz, enganada e destituída de qualquer autonomia, desta vez eu senti algo que li em muitos relatos de parto: me senti forte, presente e capaz de ser e fazer o que eu quiser na vida!

Se eu pudesse aconselhar uma gestante, eu diria sobre meus dois aprendizados em cada parto.
No primeiro parto, eu estava desinformada e só sabia que tinha muita coisa errada ali. Aprendi com isso a me informar para o próximo parto.
No segundo, eu confiei mais nas palavras de quem estava em minha volta do que na minha percepção e, no final, eu percebi que eu sempre soube de tudo que estava acontecendo. No meu plano de parto havia um desejo de que meu parto durasse 5 horas. E esse foi o tempo que durou, a partir do momento que eu tomei as rédeas do meu parto, que eu conectei corpo e mente, que eu iniciei meus rituais e me entreguei, me dispus a viver o mistério. Esta foi uma prova do poder na nossa intuição e da capacidade de entender o mundo além dos olhos e da razão.

Outra coisa importante foi ter Marcelo Carrusca me apoiando incondicionalmente! Te amo pra sempre por isso!

As fotos incríveis são da Lela Beltrao e tem um video lindo de viver feito pela Kátia Ribeiro Souza , mas que por enquanto prefiro compartilhar com poucxs amigxs, de preferência tomando um café no sofá da minha casa. Obrigada a vocês duas, maravilhosas!

Pra mim, se fosse possível traduzir meu parto em uma imagem, seria a de ver um furacão chegando ao longe, temer este furacão, receber o furacão na minha casa para, enfim, ME TORNAR o furacão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: